quarta-feira, 10 de setembro de 2014

  Há muito tempo mantenho em meu quarto um cinzeiro, ainda sujo e fedorento (como é característico em todo cinzeiro).
  Acontece que, quando meus amigos e eu, nos reunía-mos em minha casa, virando madrugadas, fazendo planos para o futuro, assistindo vídeos de nossas bandas favoritas, relcamando da vida "difícil" de um adolescente, do tédio, dos amores eternos (de uma semana), dos pais que não nos entendiam (NUNCA. E agora entendemos que éramos nós quem não os entendiam), ou mesmo só pra darmos risadas, jogar conversa fora, vez ou outra, fumávamos alguns cigarros. E, a cada cigarro, parece-me que sentíamo-nos mais adultos. hahaha, que bobagem.
  Já faz algum tempo que não sou mais adolescente, e faz algum tempo, também, que já não fumo.
  Toda vez em que vou arrumar meu quarto, me vejo tentado a dispensar o fétido objeto, mas acabo sempre mantendo-o, no mesmo lugar.
  Mantenho o cinzeiro pelo mesmo motivo que mantenho em mim uma falsa de esperança de que eles, meus amigos, e eu, voltaremos a nos reunir e o cinzeiro virá a ser útil novamente.
Marcelo Rutshell.
(escrito em 05/09/2014)

O Segundo Domingo de Agosto

  O nome completo dele eu sei, está em meu RG. Não sei sua idade, nem em que dia completa anos. Procurei, do meu jeito, “descobrir” algumas coisas. Nada. Não sei de que músicas ele gosta, nem se gosta de música. Não sei se leu algum livro. À quem puxei este gosto? Será que seu signo combina com o meu? Que textura terá a palma da sua mão? Não lembro de termos dado as mãos alguma vez. Qual será seu humor? Sarcástico, irreverente, hilário? Ou vai ver é mal humorado mesmo. Não lembro de alguma piada dele. Não sei que tom tem sua risada. Será que ele repreende com um olhar? Meus amigos sempre tinham seus pais como heróis, “o meu pai faz isso, faz aquilo”, eu acabei por gostar mais dos anti-heróis; como porto-seguro, “tu vai ver, vou contar pro meu pai”, eu me protegia em meu quarto, em casos mais críticos, em mim mesmo.
  A adolescência me trouxe uma fase de rebeldia e revolta, não cansava de dizer, categoricamente, à quem quer que me perguntasse sobre ele, “nunca me fez falta”. Hoje sei que apenas mentia pra mim mesmo. Claro que a falta teria sido muito maior, não fosse minha mãe, que supria tudo o que e como podia. Tive uma infância feliz, muito feliz mesmo, graças a ela e seus sacrifícios. Muito devo também a minha vó materna (inclusive alguns pequenos traumas), minha irmã e meu tio. Não fosse ele não teria para quem entregar os trabalhinhos da escola no Dia dos Pais.
  Agora, não sem lágrimas nos olhos, consigo admitir que sempre quis que alguém me visse jogar bola, driblar o time inteiro e deixar o goleiro no chão, ter alguém pra apontar enquanto corria comemorando o gol que acabara de fazer.
  Alguém pra eu mostrar a música nova que aprendi ao violão e a música que compus. Pra me aplaudir no primeiro show da minha banda, até pra mentir e dizer que a minha era a melhor banda do festival, do mundo. Pra ver os amigos que fiz, pra me ensinar a andar de bicicleta, a nadar, a dirigir, a fazer a barba.
  Será que ele gosta de acordar mais cedo só pra ver o sol nascer? Será que ele lembra de alguém especial quando vê a lua? Será que ele, alguma vez, já ficou horas vendo o ir e vir das ondas tentando entender o sentido da vida? Queria respostas pra entender estas minhas loucuras.
  Hoje, antes de vir para o trabalho, meu irmão caçula me perguntou “mano, quer ver o que eu fiz na escola ‘do’ dia dos pais?”, “quero, sim”, respondi. Logo me trouxe ele uma caixa e foi me passando três folhinhas, a primeira um “diploma” de melhor pais do mundo, a segunda um desenho de um pai e seu filho, e o terceiro, o que ele mais gostou, um cartãozinho em formato de carro e dentro escrito, com a grafia dele próprio, no auge da segunda série, “Eu Te Amo Pai”, e seu nome abaixo. Elogiei os trabalhos dele, com os olhos mareados (acho que estou ficando velho e motivo demais). Ao escrever agora este parágrafo me dei conta de que esta deve ser a primeira vez que escrevo estas quatro palavras juntas, “eu te amo pai”. Mesmo “pai”, nunca foi uma palavra que usei muito.
  Nos últimos meses tenho procurado me “aproximar” de meu progenitor, não tem sido muito fácil pra mim, acho que pra ele também é estranho. Com uns 16 anos fiz uma música pra ele, em um trecho final escrevi “sei que pra sempre vamos nos arrepender de termos perdido tanto tempo quando não tínhamos tempo algum a perder”. Nunca a mostrei a ninguém.

Melhor parar por aqui.

Pra finalizar, só quero desejar um feliz dia dos pais, ao melhor pai do mundo, minha mãe. TE AMO “Pãe”, obrigado por tudo "Maria", sempre.

Marcelo Rutshell.



P.S.: desconsiderem qualquer erro gramático e ordem racional, foi escrito sem antes "editar o pensamento".

(escrito em 09/08/2014)

E a primeira vez é a sempre a última chance...

  Estava lembrando hoje da mais antiga recordação que guardo de sentar à mesa para uma refeição com meu pai. E a memória, como poucas vezes, me pareceu tão clara, como se fosse ontem. Talvez por que, de fato, foi, literalmente, ontem (08 de março de 2014). 
  Uma coisa tão corriqueira para a maioria mas que eu tive que esperar quase 28 anos para tal evento.
  Vou aproveitar a lembrança ainda vívida e registrar, para que eu mesmo não esqueça... sabe-se lá quando isso vai (se é que vai) acontecer de novo.

(resumindo) Tinha combinado de ir , pela primeira vez desde que eu tinha uns 11, 14 anos, à casa de meu pai (que estranho usar esta palavra) para acertarmos um outro assunto que, no momento, é irrelevante para o entendimento deste registro. Fui até lá em meu horário de almoço no trabalho, conforme havíamos combinado. Era pra ser coisa rápida, não mais que 15 minutos, calculei.
  Eis que, para minha surpresa, meu pai me convidou para ficar e almoçar com ele e sua atual esposa. Bem que tentei me desvincilhiar, educadamente, do convite mas, não sei bem por quê, diante de uma breve insistência, acabei aceitando.
  O almoço, porém, ainda levaria alguns minutos para ficar pronto e ser servido. Meu pai então me convidou a sentarmos na área, enquanto esperávamos. Puxei uma cadeira, ele sentou-se ao lado noutra.

N.A.: vale aqui salientar que nunca tive com ele uma conversa, não por mais de 10, 15 minutos, em todos estes quase 28 anos meus.

  Depois de um breve e até desconfortante silêncio de ambos, trocamos algumas palavras, sobre algo que não lembro. Sim, eu estava nervoso. Queria não dizer nenhuma besteira, para que, naquelas poucas palavras trocadas, conseguisse, de alguma forma, trasnpassar a ele o pouco da cultura que acumulei, a educação que minha mãe me transmitiu sem qualquer ajuda dele e também os milhares de sonhos que carrego em mim. Acho até que gaguejei algumas vezes, tamanho nervosismo. Mas sei que não é possível transmitir, apresentar, a essência total de um ser humano, aos 27 anos de idade, a praticamente um estranho, em aproximadamente uma hora de conversação, mesmo sendo este estranho seu progenitor.
  Em determinado momento, algo me chamou atenção: um dos dois cães da casa, veio sentar-se aos pés de meu pai, que fez um afago na cabeça do velho cão. Uma reflexão se fez em minha mente e martelou meus pensamentos.
  Fomos, enfim, informados que o almoço já estava pronto e nos dirigimos à cozinha, acabando com aquela conversa sem um assunto em comum entre os interlocutores, que me pareceu durar uma eternidade, por não saber bem o que dizer. Por fim almoçamos.
  Deixo aqui registrado, para que minha memória não me seja traidora, como já me foi outras tantas vezes, a primeira refeição (de que consigo me lembrar) ao lado de meu pai... e também, e talvez principalmente, o exato momento em que percebi que naquele afago, mesmo que tenha sido o único na vida daquele cão, ele, o cão, recebeu de meu pai mais carinho que eu já recebi dele em toda minha vida.

(escrito em 09/03/2014)


Marcelo Rutshell.